Análise | Predator: Hunting Grounds é mais um exemplo da péssima fase do monstro


O Predador é um dos monstros mais clássicos do cinema e uma das figuras mais grotescas e violentas a darem as caras nas telonas. É, também, uma criatura que vem passando por uma péssima fase que, na realidade, é até maior do que a época em que suas produções tinham qualidade; uma tristeza para os fãs que sabem que o alienígena caçador merece e é capaz de muito mais.

Predator: Hunting Grounds não só é uma prova disso, como, pelo total oposto, perpetua a péssima fase pela qual o bichão vem passando. A partir de uma boa ideia, com a qual teve sucesso questionável em uma adaptação de Sexta-Feira 13 para consoles e PC, a desenvolvedora IllFonic apresenta agora um novo multiplayer assimétrico, desta vez mais focado na ação e ainda mais na violência, com tiro, porrada, sangue e lâminas.

 

Na teoria, uma combinação das mais interessantes, afinal de contas finalmente temos a capacidade de controlar o Predador e usar todo seu aparato tecnológico para caçar soldados que, por mais que tenham treinamento de elite, não são páreo para uma lâmina bem afiada. A realidade, porém, não é tão deliciosamente violenta assim, e o maior inimigo do alienígena será justamente os problemas técnicos que assolam a experiência.


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A começar pelo matchmaking, demorado e com graves problemas de estabilidade. Durante o processo de análise do Canaltech, realizado após o lançamento oficial do game no PlayStation 4 e PC, fomos pareados com jogadores da América Latina e Estados Unidos, com o alto ping indicando a ausência de servidores locais. O resultado, claro, foi um lag extremo e inaceitável em um game que exige reflexos rápidos e um dedo apurado no gatilho.

Os jogadores de Predator: Hunting Grounds precisarão ter paciência, principalmente se quiserem jogar como o alienígena, pois a demora é grande e o lag nas alturas (Imagem: Reprodução/Felipe Demartini)

Em multiplayer assimétricos, é de se esperar certa demora, principalmente para quem quer jogar com o vilão, normalmente o astro de títulos 4v1. Como os números indicam, há menos assentos para eles e mais gente querendo controlá-los. Mas ninguém liga o vídeo game aceitando tranquilamente uma espera de 15 minutos por uma mísera partida.

E quando a ação efetivamente começa, ela também não é bela como a ideia faz parecer. No comando do Predador, temos acesso, sim, a todo o aparato do monstro enquanto somos liberados em um local aleatório da floresta, sem indicações de onde estão os soldados. Saltando por árvores e usando pontos de vantagem, devemos usar as próprias habilidades do caçador para achar o caminho a partir de vibrações sonoras e sinais térmicos, principalmente.

É uma jogabilidade que lembra a série inFamous, até certo ponto, com o alienígena tendo uma movimentação rápida e podendo praticar grandes saltos, usando as vantagens do terreno para se defender e atacar. O Predador cobre grandes distâncias rapidamente, apesar de, nos galhos, um avanço baseado em trilhos pré-programados pode acabar levando o jogador a outra direção, fazendo com que ele se perca no labirinto verde da floresta.

A mata é fechada e é difícil enxergar o que está à distância, com o visor térmico sendo essencial nestas horas. É ele, também, que faz com que o game rode com certa qualidade aos olhos, já que fora da visão tecnológica do alienígena, o que temos diante de nós é um festival de serrilhados e quedas na taxa de quadros, principalmente quando há muito acontecendo na tela, prejudicando os momentos mais tensos e decisivos das partidas.

Balança centralizada

Serrilhados e quedas na taxa de frames são frequentes nos cenários, dificultando a missão de todos nas partidas de Predator: Hunting Grounds (Imagem: Reprodução/Felipe Demartini)

Os soldados não possuem a mesma velocidade de movimentação do Predador, mas pelo menos respondem bem aos ataques e chegam bem armados ao campo de batalha, com suprimentos suficientes para enfrentar NPCs e dar cabo do monstro, caso saibam coordenar sua ofensiva. Caixas de munição e energia garantem o suporte necessário pelos cenários, mas também podem servir como iscas para o Predador, gerando uma sensação interessante de risco e recompensa.

Cada um dos lados tem objetivos claros, com os soldados tendo de cumprir missões que os levam a diferentes pontos do cenário para destruir equipamentos ou roubar dados de computadores, obrigando-os a se movimentar e permanecer longos momentos parados em uma mesma área. Para o Predador, claro, o objetivo é não apenas matar os soldados humanos e seus objetos de caça como também coletar os crânios dos oponentes como troféus. É importante saber a hora de fazer isso, pois o processo leva tempo no qual o alienígena estará completamente exposto aos disparos e explosivos dos humanos.

Mais do que acabar com os soldados humanos, a ideia de Predator: Hunting Grounds é levar os crânios deles para casa como troféu (Imagem: Reprodução/Felipe Demartini)

O alienígena possui sensores de isolamento, que mostram o quanto um soldado está vulnerável a uma investida, enquanto o militar caído pode indicar aos companheiros a localização do Predador para que seja salvo. Mesmo após morrer, pedidos de reforços podem ressuscitar os companheiros e virar a balança do combate, que termina com a extração dos soldados ou a morte de todos eles pelas mãos do caçador.

Os humanos devem saber usar o cenário em favor próprio para não perderem energia preciosa enfrentando NPCs e descer fogo com tudo sobre o alienígena, que é forte, mas não é invencível. Para o Predador, é importante saber a hora de descer das árvores, atacar, fugir e usar habilidades, que consomem uma barra de energia rapidamente caso sejam ativadas todas de uma só vez.

Saber a hora de atacar, recuar e coletar os troféus é essencial para a vitória como Predador em Hunting Grounds (Imagem: Reprodução/Felipe Demartini)

Não há regeneração de vida automática, e enquanto os soldados podem se recuperar em pontos espalhados pelo mapa, o Predador possui uma seringa com uso limitado, que também deve ser usada com parcimônia. O ideal, na maior parte do tempo, é agir na surdina, já que o sangue verde do caçador também pode servir a favor dos soldados, chamando a atenção deles com mais facilidade mesmo em meio à mata. Habilidade e paciência são as palavras de ordem nessa caçada.

Temos aqui um equilíbrio apurado e, principalmente, a noção de que a IllFonic acerta onde era mais difícil. O Predador é bem mais forte e resistentes que os soldados, claro, mas ao contrário do que acontece em outros multiplayer assimétricos, é um bom balanceamento aplicado entre todos eles, fazendo com que os militares tenham chance efetiva de vencer o combate, caso saibam o que fazer, e não se sintam enfrentando uma esponja de balas ambulante.

Desenho em guardanapo vagabundo

Opções de customização até incentivam o jogador a continuar, mas os problemas de Predator: Hunting Grounds são muito maiores (Imagem: Reprodução/Felipe Demartini)

Chega a ser trágico que os bugs e elementos falhos de jogabilidade, além da já citada baixa qualidade visual, entrem tanto no caminho desse equilíbrio. Durante nosso período de testes com o game, Predator: Hunting Grounds chegou a travar algumas vezes — sendo a primeira delas assim que iniciamos o game para começar os trabalhos —, além de exibir certa dificuldade para manter partidas funcionando até o final, principalmente quando jogadores de PS4 e PC são unidos nelas.

Durante uma das rodadas, o game simplesmente não reconheceu a realização de uma ação pelos soldados, congelando o objetivo e impedindo que seguíssemos em frente. Isso também nos colocou à mercê do Predador, mas não por muito tempo, já que sem limite de tempo e com vidas e munição cheias, foi fácil acabar com o alienígena ainda em seu primeiro ataque, já que o oponente também não sabia muito bem o que estava fazendo. Nenhum dos jogadores, porém, colheu os louros dessa vitória, afinal de contas, o tempo acabou e a missão não pode ser concluída por motivos de bug.

Enquanto o alienígena tem todos os seus equipamentos funcionais e plenamente utilizáveis, a sensação é de que os soldados são meros amontoados de pixels e buchas de canhão para serem dilacerados na mata ou, simplesmente, pressionarem os gatilhos para vencer.

Nada de rostos conhecidos em Predator: Hunting Grounds, o que só aumenta a impressão de termos uma ideia que acabou sendo lançada pela metade (Imagem: Reprodução/Felipe Demartini)

Seria pedir demais a presença de personagens originais dos filmes, é verdade. As ausências de Arnold Schwarzenegger, Carl Weathers, Danny Glover ou até mesmo do recém-chegado Boyd Holbrook não fariam tanta falta se o restante do título fosse bem-acabado e passasse uma sensação digna do longa original, de 1987. A trilha sonora original está em Hunting Grounds, é verdade, mas também em serviços de streaming, e você não precisa passar por isso para ouvir o tema clássico e arrebatador do monstro.

A falta de polimento é percebida em todos os aspectos de Predator: Hunting Grounds, enquanto a percepção é de que o cuidado com o material teve limites, seja por falta de orçamento, habilidade ou, simplesmente, cuidado da desenvolvedora. E de uma possibilidade interessante, apoiada nas bases de outros games que utilizarem bem o estilo 4v1, este jogo acaba sendo um garrancho cheio de potencial.

Lançado sem alarde, o título chega para confirmar as expectativas já baixíssimas que haviam sido deixadas pela Beta aberta, o que faz com que ele nem mesmo seja decepcionante, pois o resultado ruim já era de se esperar. Aos fãs do Predador, o momento ainda é de recorrer à nostalgia, seja nos filmes originais ou nos beat’em ups do passado, que desfiguraram o personagem, mas apresentam diversão de sobra para compensar.

Predator: Hunting Grounds foi analisado no PS4, em cópia digital gentilmente cedida pela Sony ao Canaltech.

Leia a matéria no Canaltech.


Fonte Felipe Demartini
Data da Publicação Original: 30 April 2020 | 3:00 pm


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