Como está o Brasil depois de 30 dias do primeiro caso confirmado de COVID-19?


Era dia 26 de fevereiro, quase dois meses após os casos iniciais da COVID-19 aparecerem na China, quando o Ministério da Saúde confirmou o primeiro caso do novo coronavírus (SARS-CoV-2) no Brasil e, por consequência, o primeiro da América Latina. O portador número um era um homem, de 61 anos, morador da cidade São Paulo, que acabara de chegar da Itália, onde contraiu a infeção. 

Pouco mais de 30 dias após a primeira notificação da doença respiratória no Brasil, o mundo parece ter dado uma volta de 180 graus e virado de cabeça para baixo. O paciente número um da América Latina fui curado e voltou às suas atividades habituais. A China, primeiro epicentro do novo coronavírus, também: o país asiático chegou a zerar, por um tempo, novos casos locais da doença e, agora, monitora-os individualmente. 

Dimensionar o real tamanho da pandemia da COVID-19 no país é importante para traçar as melhores políticas públicas de contenção

Enquanto isso, a Organização Mundial da Saúde (OMS) declarou a situação da COVID-19 como uma pandemia — quando todos os países do globo são afetados pela virose — no dia 10 de março. Nesse meio tempo, a Europa, com especial destaque para a Itália e a Espanha, se tornou o novo epicentro do coronavírus, sendo logo substituída pelos Estados Unidos e seus mais de 200 mil casos registrados da doença.


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Brasil em números

Segundo dados do Ministério da Saúde, nesta quarta (1), o Brasil registra 6.836 casos confirmados para a COVID-19 e 240 óbitos em decorrência da infecção. Semana passada (ou quando se completaram os 30 dias corridos), até o dia 25 de março, eram 2.433 casos e 57 óbitos. Enquanto isso, na semana retrasada, até o dia 18, eram apenas 428 casos e somente quatro óbitos. É um fato: a média brasileira cresce exponencialmente nos números oficias. 

Quando esses dados gerais da infecção no Brasil são comparados com os de outros países (igual é possível analisar nos gráficos abaixo), os 30 primeiros dias brasileiros desde o primeiro caso parecem preocupantes. Aqui, vale a observação:  poucos países, além da China (e o Brasil), tomaram medidas como isolamento social em massa antes de completarem o primeiro mês da pandemia.

COVID-19 - Alemana
Casos e óbitos desde o primeiro caso até esta semana (Canaltech)
COVID-19 - Brasil
Casos e óbitos desde o primeiro caso até esta semana (Canaltech)
COVID-19 - China
Casos e óbitos desde o primeiro registro até esta semana (Canaltech)
COVID-19 - Coreia do Sul
Casos e óbitos desde o primeiro caso até esta semana (Canaltech)
COVID-19 - Espanha
Casos e óbitos desde o primeiro caso até esta semana (Canaltech)
COVID-19 - Inglaterra
Casos e óbitos desde o primeiro caso até esta semana (Canaltech)
COVID-19 - Itália
Casos e óbitos desde o primeiro caso até esta semana (Canaltech)
COVID-19 - Japão
Casos e óbitos desde o primeiro caso até esta semana (Canaltech)

Nesse mesmo intervalo de tempo, na Europa, a Alemanha chegou a 16 casos e nenhuma morte, sendo que hoje tem mais de 61 mil caos e 583 óbitos. A Itália registrou 650 casos e nenhuma morte e, atualmente, enfrenta mais de 80 mil casos e mais de oito mil mortes. A Espanha teve somente 32 casos e, agora, encara mais de 64 mil casos e mais de quatro mil mortos. Já a Inglaterra estava com apenas 20 casos, isso em contraponto aos seus mais de 14 mil casos e mais de 700 óbitos atuais.  

Ainda no continente asiático, é difícil comparar a situação da China, já que a própria OMS só passou a notificar os casos do país quando a COVID-19 já se manifestava em mais de 270 pacientes. No entanto, a Coreia do Sul chegou ao fim do primeiro mês com apenas 30 casos confirmados e, hoje, tem aproximados 10 mil casos ao lado de pouco mais de 150 óbitos. O Japão tinha 59 casos e uma morte, em contraposição a mais de 18.866 casos e 54 mortes, no dia 30 de março.

Brasil no divã

Embora sejam importantes as comparações entre países, ainda mais porque os casos da COVID-19 foram registrados mais tarde no Brasil, elas não podem ser consideradas como verdades absolutas. “A questão é que [esses dados] dependem muito do que cada país estava fazendo. Se todos seguissem o mesmo critério de notificação, se todos tivessem o mesmo acesso ao teste, se todos tivessem feito uma busca ativa de casos, você poderia comparar”, explica Ana Freitas Ribeiro, médica sanitarista do Instituto de Infectologia Emilio Ribas, em São Paulo.

Professora da Faculdade de Medicina Universidade Municipal de São Caetano do Sul (USCS) e epidemiologista, Ribeiro esclarece: “A vigilância dos países não são semelhantes, então é difícil comparar coisas que são diferentes. Países que, por exemplo, identificam casos leves e os notificam… é diferente de países que detectam somente os graves, como o Brasil”.

Para se dimensionar o tamanho real do novo coronavírus no Brasil, é preciso saber se ao menos todos os casos graves — aqueles que devem representar cerca 20% dos infectados — estão notificados. De acordo com a professora, “não sabemos”, porque os diagnósticos não chegam no tempo necessário.  

“O que o Ministério [da Saúde] está divulgando, que são os casos confirmados, são os casos que têm exames já processados. Temos um volume de pessoas internadas e até que já morreram sem o diagnóstico, então são vários gargalos [problemas nesse levantamento de dados], o que dificulta a análise dos gráficos”, afirma a epidemiologista.

Com essa janela entre os exames sem disgnóstico e as estatísticas oficiais, que só incluem casos confirmados, é complexo traçar um panorama da real situação. Segundo a médica, “exames têm mais ou menos 15 dias de atraso no Adolfo Lutz [instituto responsável, no estado de São Paulo, pelas análises clínicas das amostras]” para a obtenção dos resultados. Seria esse o atraso da realidade, pelo menos nos hospitais públicos, segundo a especialista.

Algumas estimativas, alegam que já são mais de 60 mil casos da COVID-19 no Brasil (Foto: Mark Schiefelbein/ AP)

Em outras palavras, a situação divulgada como oficial pode representar, na verdade, a situação de duas semanas atrás, ou seja, os 15 dias em que se leva para a confirmação ou não de um caso. Mesmo assim é possível saber que “não estamos na descendência da curva, é uma curva ascendente. Obviamente, o Brasil é um país imenso, então a situação epidemiológica não vai ser igual em todos os locais”, comenta a médica sanitarista, destacando as situações de São Paulo e do Rio Janeiro.

“Cada cidade teria que monitorar a sua curva e ver se essas medidas [como isolamento social] estão impactando, mas para isso, de antemão, é preciso começar a ter testes para os pacientes que estão aguardando, e testar mais pessoas com síndrome gripal”, defende Ribeiro. Para ela, o controle da pandemia está diretamente ligado ao aumento do número de testes realizados e à eficiente divulgação dos resultados.

Para exemplificar a dificuldade de metrificar a situação, o estado e São Paulo parou por 15 dias e o fim dessa quarentena inicial está previsto para a próxima segunda-feira (6). Entretanto, nesses 15 dias de isolamento, apareceram nos hospitais aqueles doentes (assintomáticos ou não) que estavam andando pelas ruas 15 dias atrás. Isso porque, como pontua Ribeiro, “os casos graves ocorrem oito dias depois do início dos sintomas”, ou seja, as pessoas que adoeceram nessa janela já estavam com o vírus, em um período de incubação. Então, apenas nos próximos 15 dias essa medida poderá gerar impacto.

Abrindo caminhos para a área, a epidemiologista afirma que é possível estimar a situação da população brasileira, frente ao novo coronavírus, a partir da coletagem de amostras de uma parte dessas pessoas, concentradas em uma região específica, e traçar os próximos passos, principalmente, tendo em mente o controle da pandemia. Nesse sentido, quando os lotes de exames para a COVID-19 chegarem e forem ampliados para casos leves e pessoas que tiveram contato com infectados, a situação poderá ser melhor medida.

“Se um percentual grande da população tiver tido [a infecção pelo coronavírus], quando você tem isolamento social reduzido, a tendência é não ter novas epidemias. Se a população, estiver na maioria suscetível, quando você volta [da quarentena], há a chance de ter outra curva ascendente, mas isso também depende de testes. Vamos precisar mesmo dessa capacidade bem melhor de testes”, adianta Ribeiro.

No Brasil e no mundo

 

Se formos comparar a situação do Brasil com algum outro país, para a epidemiologista, isso é possível com a Itália e a Espanha, porque “são países que também estão detectando os casos graves. A única diferença é que tem muita gente que está em isolamento social [no Brasil], que pode levar uma redução da [nossa] curva”, quando comparados os números. Somente na Espanha foram registradas 849 mortes por COVID-19 em 24 horas — e a pandemia continua em ascensão no país.

Além disso, é problemático ter como referência a China e o seu período de “resolução” da pandemia em seu território para a médica sanitarista: “A China estabeleceu um distanciamento de uma província inteira [Hubei, onde está localizado o primeiro epicentro do mundo, a cidade de Wuhan], já no dia 23 de janeiro, menos de um mês após serem relatados os primeiros casos. Todos os países que tiverem menos condições de fazer essas medidas tão radicais de distanciamento social terão uma taxa de infecção maior”, comenta.

“Nessa pandemia, o que temos visto é que quem não tomar as medidas de afastamento, terá milhões de óbitos como previsão. E se tomar as medidas [de isolamento], serão milhares de óbitos, como aconteceu na China — onde foram três mil óbitos”, alerta a professora.

Para Ribeiro, “temos sim condições de evitar grandes números, como fizeram a Coreia do Sul e a Alemanha, que têm uma letalidade muito baixa. Temos algumas experiências: no caso da China, que fez um isolamento social importante; e outros países, que abordaram a questão da testagem rápida amplamente distribuída”. Isso significa que existem duas formas de conter os avanços da COVID-19, seja por meio do isolamento rigoroso ou pela testagem em massa, inclusive dos assintomáticos que podem transmitir o coronavírus, seguida de isolamento apenas dos confirmados.

Fica o alerta: se voltarmos a circular nas ruas devido a uma queda dos índices de novos casos da COVID-19, é preciso entendermos o que levou a essa diminuição. Segundo Ribeiro, isso é essencial para que as autoridades de saúde não fiquem no escuro. “A partir do momento que você tem um aumento da capacidade de testes, as decisões serão melhores tomadas”, conclui a professora.

Subnotificações? Falta de testes?

Para entender a real dimensão da COVID-19 no Brasil, novas inciativas e pesquisas são feitas, diariamente, inclusive lá fora. É o caso do Centro para Modelagem Matemática de Doenças Infecciosas da London School of Tropical Medicine, do Reino Unido. A partir de suas pesquisas, foram organizadas estimativas da subnotificação da COVID-19 para vários países e, entre eles, o levantamento mostra que, no Brasil, apenas 11% do total de casos foram diagnosticados. Isso significa que devemos ter cerca de 62 mil casos no país — conforme corroboram pesquisadores da UnB, UFRJ e USP em nota técnica, apontando que a evolução da epidemia em São Paulo (SP), Rio de Janeiro (RJ) e Brasília (DF) pode ser dramática, já que avançará mais depressa nestas cidades:

Em um cenário mais grave, onde essa projeção de casos se confirme no Distrito Federal, estima-se que possam ser necessários muito mais leitos hospitalares e leitos de cuidados intensivos para o atendimento de casos confirmados da doença. Essas estimativas são consistentes com o percentual observado na Itália, conforme a Nota Técnica 2 – emitida pelo Núcleo de Operações e Inteligência em Saúde (Nois) em 17/3/2020 – e só reforçam a necessidade de medidas de supressão da transmissão da COVID-19. Assim, medidas amplas de isolamento, quarentena e restrição do contato social são fundamentais para que possa ocorrer uma desaceleração da propagação da epidemia.

Já o Rio Grande do Sul começa um estudo inédito no país, a partir de amostragens epidemiológicas sequenciais, o que deve indicar os reais índices da COVID-19 pelas diferentes regiões do estado, inclusive dos casos que não apresentam sintomas. Com essa testagem amostral na população, deve ser possível identificar focos e fazer políticas de contenção social mais acertadas. 

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Fonte Fidel Forato
Data da Publicação Original: 2 April 2020 | 8:00 pm


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