O Oficial e o Espião



Em 13 de janeiro de 1898, o escritor francês Émile Zola publica um artigo intitulado “J’Accuse” (“Eu acuso”) na primeira página do jornal “L’Aurore” como uma carta aberta ao presidente da França. Ele comprava então briga com o exército francês ao sair em defesa de Alfred Dreyfus, judeu condenado injustamente por alta traição.

O adjetivo “judeu” não foi usado em vão. Esse é um dos casos mais famosos de antissemitismo. E “J’Accuse” passou a ser uma expressão associada ao “Affaire Dreyfus” (“Caso Dreyfus). Somente em 1906 Dreyfus seria inocentado, explicitando o preconceito e o equívoco do exército. Em 1919, Abel Gance se apropria do título do artigo de Zola para fazer seu antológico libelo antiguerra. Mas seu “J’Accuse”, refilmado em 1938, já como um filme sonoro, não tem nada a ver com o caso Dreyfus.

O “J’Accuse” de Roman Polanski, ao contrário, tem tudo a ver com o caso. Tal como Hitchcock, Polanski tem se atraído por falsos culpados, talvez pleiteando sua própria inocência nos casos de estupro dos quais é acusado. Quem faz o papel do capitão Dreyfus é o quase irreconhecível Louis Garrel. Como o tenente-coronel Picquart, temos Jean Dujardin, talvez em seu melhor momento no cinema. É ele que vai mover a roda para tentar inocentar Dreyfus, simplesmente porque acredita na justiça e na França, e não quer essa mancha no exército francês.

Intitulado no Brasil “O Oficial e o Espião”, o filme chegou a ficar quatro dias em cartaz em algumas cidades brasileiras, antes da declaração de quarentena que fechou os cinemas e outros lugares fechados. Na última quinta, dia 9, o filme passou a fazer parte do catálogo de streaming, na plataforma Looke.

Polanski se baseia no romance “D.”, publicado em 2013 com autoria do escritor britânico Robert Harris, que também escreveu o roteiro junto com o diretor. O filme mostra o crescimento do nacionalismo, e consequentemente do antissemitismo, na França do final do século 19, em que a maior parte das pessoas que se aglomeravam perto do tribunal queria que o judeu Dreyfus fosse declarado culpado, não importando muito se ele o fosse de fato.

Se no Brasil de 2020 temos uma minoria de idiotas que acredita que o coronavírus é manipulação e um presidente que faz pouco caso da pandemia e ninguém consegue derrubá-lo, por incompetência total dos poderes e da oposição, imaginem naquele momento em que a França era tomada por um sentimento de nacionalismo hediondo.

Polanski sabe temperar seu filme com a gravidade dos acontecimentos históricos. Mas por pouco não perde de vista seu protagonista, o tenente-coronel Picquart, que se tornaria Ministro da Guerra à altura da absolvição de Dreyfus. Na verdade, foi sua atuação a favor de Dreyfus que fez com que ele assumisse o posto na nova república. Apesar de tudo, Polanski não esconde que Picquart também tinha fortes tendências antissemitas.

Se há um problema no filme é que ele tem de percorrer um longo período de um caso cheio de complexidades, falsificações, preconceitos e injustiça. São praticamente 13 anos que o filme percorre por vezes observando o relógio, como se estivesse com pressa. Nos momentos em que atenua o ritmo para acentuar a gravidade de algumas situações, incluindo o encontro final, temos grande cinema, como só um veterano consegue fazer.

* Sérgio Alpendre é crítico e professor de cinema


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Data da Publicação Original: 12 April 2020 | 3:04 am


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